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sábado

Cidade do Desejo

12/11/2008

Durante toda a madrugada, a chuva. Sentia os pingos grossos ferindo as janelas e as laterais do ônibus, e ainda sob o efeito do remédio para evitar o previsível enjôo, enrolei-me na manta xadrez buscando, na poltrona, uma posição que me lembrasse a cama deixada para trás. Àquela altura, não me interessavam as obras na estrada nem tampouco os faróis que possivelmente cruzavam em sentido contrário. Porque a quietude arrastava-me para o perigoso território dos sonhos que temos ainda acordados.

Logo as imagens da semana anterior invadiram a memória misturando-se aos diversos cheiros, cores e sensações que trazia comigo das primeiras caminhadas que fiz pelo centro de Porto Alegre, durante a 54ª edição da Feira do Livro. Além das bancas de editoras e livrarias espalhadas pelas alamedas, impressionaram-me as sombras e o colorido das árvores na Praça; a beleza arquitetônica dos prédios históricos; as calçadas largas e as esquinas ainda acordando enquanto seguia a bengala de um senhor com ares de Mário Quintana. Ah, em quantas ruas, bancos, janelas e passagens desta cidade multiplicou-se o poeta?

Não foram poucas as mudanças de cidade que fiz. E pensando nelas, ocorre-me agora a certeza de que todas foram impulsionadas pelo desejo, uma fome silenciosa que queima as entranhas e me empurra ao desconhecido, na tentativa de saciá-la. Nunca sei ao certo o que busca meu espírito, algumas vezes penso ser o silêncio das matas ou o barulho da onda estourando nas pedras. Em outras, tenho a certeza de que vaga arranhando o asfalto, marcando com sangue as paredes cinza de uma grande cidade.

Sim, deixei-me muitas vezes levar por esta inquietude sem nome. A mesma que agora me faz suspirar ao reviver os momentos de descoberta de Porto Alegre. Porque há, eu sei, eu sinto, um espírito que dorme em cada cidade. E depende apenas do viajante descobrir-lhe a forma, os movimentos, a essência. Na capital gaúcha, creio, vive um espírito benfazejo. Um ser de múltiplas cores cuja grandeza se espalha pelas pedras do calçamento, pelas paredes chorosas, a quietude do Guaíba, os espaços culturais, o Mercado Público, os cafés e ainda nos cabelos coloridos dos jovens.

Lembrei-me da conversa que tive com o motorista de táxi que me levara, dias antes, ao aeroporto. “A senhora não imagina o que é o clima desta cidade, mas ainda assim, amo morar aqui”, dizia o homem. “Vai para onde?”, perguntou-me. E após ouvir-me dizer que voltava para Florianópolis, onde vivo há dois anos, emendou: “Imagine, se tivéssemos também praias como as de lá, bah!”. Eu ri e com toda a sinceridade de quem partia com vontade de voltar, garanti-lhe que a ausência de praia não diminuía em nada o charme de Porto Alegre.

Porque acredito que a beleza não está apenas no que ilumina o olhar, mas principalmente no que enternece a alma. Sensação que experimentei várias vezes ao longo de minha vida e que repeti neste novembro chuvoso, enquanto descobria, acompanhada apenas de minha solidão, os segredos de Porto Alegre.

Desta cidade cujo céu acaba de varar pela fresta da janela do ônibus. E eu, como se revisitasse uma antiga morada, me preparo para andar novamente pelas ruas do Centro da cidade, lugar onde minha inquietude parece ter descoberto a paz.

Lembrei-me das palavras de Calvino em suas Cidades Invisíveis e corri a buscá-las na tentativa de explicar a fotografia que tirei do espírito de Porto Alegre: “A cidade aparece como um todo no qual nenhum desejo é desperdiçado e do qual você faz parte, e, uma vez que aqui se goza tudo o que não se goza em outros lugares, não resta nada além de residir nesse desejo e se satisfazer”.

A Fada do Sexo

10/09/2008

Sou forçada a admitir que, apesar de não suportar correntes virtuais, contribuo para que elas existam e cheguem à caixa postal de amigos, parentes e conhecidos que não vejo há anos. É certo que tenho pudores e, sempre que posso, evito aborrecê-los com essas bobagens. Mas há ocasiões em que me vejo forçada, por um motivo ou outro, a fazer uso da minha lista de contatos.

Graças a esta fraqueza, recebi outro dia o e-mail de um amigo me pedindo que eu não lhe mandasse nada que não fosse escrito por mim mesma. A mensagem veio em resposta a uma oração que recebi e passei adiante – e aqui, leitor, preciso dizer que nem religião eu tenho! O texto, de autoria desconhecida, falava de paz, harmonia, amor, felicidade. E desejava, àqueles que o recebessem, as melhores vibrações do universo.

Que mal há nisso? A meu ver, mal nenhum. Porque o problema das correntes não são as orações – que santo ou deus vai se importar se fulano ou sicrano resolve mandar para a lixeira, a despeito de toda a tragédia humana, uma oração? –, nem tampouco as palavras ou textos inspirados na Nova Era. Não, o problema das correntes são os medos.

Veja, por exemplo, o caso da Fada Irlandesa do Sexo. Ela me foi enviada por uma amiga acreana, na última sexta-feira. A mensagem trazia uma despudorada fada verde que apontava pelo menos dez boas razões para se fazer sexo, entre as quais o fato de ser um “tranqüilizante natural, mais poderoso que o Valium”.

No início, dei boas gargalhadas. Mas ao final do texto, as risadas foram substituídas por um frio e curto arrepio na espinha: passar o resto da vida sem sexo? Ai, ai, ai, ai, ai... Respirei fundo, lembrei-me dos últimos meses, das férias, do verão passado! E decidi: a vida já anda muito confusa para se viver com uma ameaça como esta pairando sobre a cabeça.

Por isso, não pensei duas vezes: corri à minha lista de endereços e escolhi, a dedo, as amigas a quem mandaria a fada irlandesa.

Se me senti ridícula com a situação? Ora, é claro que sim! Mas me lembrei de Nélson Rodrigues: “Só os imbecis têm medo do ridículo”.

Constância e Paciência

02/09/2008

Não acompanhei os jogos olímpicos, não sei em que pé está a inflação do país, a briga entre Marta e Alckmin pela prefeitura de São Paulo ou a candidatura de Obama, nos Estados Unidos. Ando também alheia às notícias sobre os 50 anos de Madonna e confesso: não faço a mínima idéia de quem é (ou do que se trata) a mulher-melancia.

Sim, ando distraída. Devo isto aos contratempos do cotidiano. A esse horizonte cinza que despeja nas ruas a bruma tênue de agosto: “O mês do cachorro-louco”, escreveu-me uma amiga. Sorrio. E ainda impregnada dos odores da cozinha, me pego constatando que a ventania do final de semana arrastou as telhas de uma casa vizinha, e que por muito pouco não perdi meu PC para as goteiras que açoitaram o quarto na última chuva: é o mês do cachorro-louco!

Lembrei-me da mulher dos biscoitos. Encontrei-a vendendo folheados no caminho da Praia da Armação. Chama-se Rosalia – o nome, de origem espanhola, foi dado pelo pai em homenagem a uma prima que falecera ainda na infância – e mudou-se há apenas uma semana para o Sul da ilha.

Seus biscoitos são feitos em massa finíssima, recheados com doce-de-leite, goiaba, maçã com canela, banana ou chocolate. Deliciosos. Comprei-os, a primeira vez, por vontade de provar a guloseima. Mas também por solidariedade, por saber como é difícil chegar a terras alheias trazendo na bagagem o sonho de construir um lar.

No dia seguinte, porém, peguei-me seguindo-a na pista principal. Levava comigo o dinheiro para uma quantia maior de biscoitos e a recomendação expressa da filha caçula de que comprasse os de chocolate.

Desta vez, aproveitei a ocasião para perguntar-lhe sobre as vendas. Rosalia, com a bandeja de doces na mão, resumiu: “Leva tempo para ganhar a confiança das pessoas”. E como que para explicar-me a resignação, contou-me sobre a experiência do irmão em Portugal: “Imagine que demorou mais de um ano para que ele fosse convidado à casa de um vizinho!”.

Depois, sem pressa, falou-me de sua própria experiência na Barra da Lagoa, lugar que havia morado antes de mudar-se para a Armação. “Acho que aqui, como em Portugal, os moradores querem ter a certeza de que você vem para ficar, para fazer parte da comunidade”, disse-me ela, confessando, logo em seguida, que apostava na constância e na paciência para vencer a resistência dos nativos da Ilha.

Fiquei ainda um bom tempo ouvindo as histórias de Rosalia, essa engenheira de 50 anos que trocou a cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, por Florianópolis. E que hoje anda mais de dez quilômetros por dia para pagar o aluguel e as contas de água, luz, telefone.

E ainda sentindo na boca o gosto dos delicados biscoitos feitos por ela, pensei no amigo que construiu a casa com as próprias mãos; no outro que a duras penas segue educando a filha com a feitura e a venda de sapatos em couro, e em mim mesma. Destinos que se cruzam nesta ilha cercada de beleza e desconfiança. Neste lugar que soaria inóspito não fossem a imensidão do mar, o verde dos morros e o assobio quase constante dos ventos.

Sim, é verdade que ando distraída. Agora mesmo, o que escuto é o coaxar triste dos sapos.

Um Amor

09/07/2008

Foram apenas dois meses sem ele. Mas senti como se fosse uma eternidade porque, quando amamos, o tempo sempre parece mais arrastado. E o que faz uma mulher fadada a esperar por seu amor? Ora, não tendo o dom de tecer, há que encontrar outra ocupação.

Comecei desentupindo os tubos de tinta a óleo, lavando os pincéis e procurando qualquer superfície sólida onde pudesse jogar as tintas. Desse exercício saíram vidros de palmito vermelho com formas seminuas e cabelos que lembravam o fogo; bancos de madeira coloridos; porta-toalhas com flores e pinceladas que transformaram o banheiro num espaço multifacetado, onde as cores e suas nuances se dobravam à luz do dia feito amante cedendo aos desejos.

No entanto, como não podia transformar o apartamento alugado numa galeria psicodélica, percebi que a pintura não seria suficiente para abrandar a saudade. Tal constatação me levou a buscar refúgio nos livros, ainda que eles me fizessem sofrer mais.

Após noites e noites sem dormir, comecei a duvidar de tudo. E como se a casa não abrigasse outra coisa além do vazio, procurei as lembranças. Era como destampar um antigo baú e retirar de lá velhas correspondências. Cartas amareladas, fotografias em preto e branco e pedaços de fitas enroladas em seda. Ah, quantas histórias escondidas ali ainda repousam aguardando o momento em que algo as desperte...

Com o passar do tempo, a espera foi ficando insuportável. Não havia mais tinta, livro ou lembrança que pudesse aplacar meus sentimentos. Ou a angústia que crescia. E depois das diversas noites insones fui tomada por um desejo irremediável de me entregar à luxúria da cama, com seus lençóis e sonhos. E para não sucumbir ao silêncio da imobilidade, obriguei-me a deixar a janela entreaberta para que a fresta de luz me arrancasse da preguiça sonolenta de levantar sentindo no peito aquela ausência.

Os amigos e alguns parentes começaram a se preocupar. Não havia o que fazer? Queria dizer-lhes que não, não havia remédio. Mas como era quase impossível explicar o que eu sentia sem correr o risco de ser taxada de lunática, ainda que não me assuste de todo tal idéia, fui forçada a usar do disfarce.

Procurei, então, estar fora de casa a maior parte do tempo. Fiz diversas visitas sociais e até me dispus a caminhar no parque. Foi a maneira que encontrei para acreditarem que eu finalmente tinha vencido a dolorosa espera, me dobrando à razão.

Por fim, quando todos ao meu redor estavam mais calmos e eu mesma começava a pensar que não seria tão absurda a idéia de voltar a usar os cadernos, ele chegou. Vinha embalado com aqueles plásticos de bolinhas de ar que tanto me diverte e cheirava à coisa nova, fresca. Uma carcaça branca que em breve eu rechearia com os velhos textos, as velhas anotações e o eterno porvir.

Quase esquecida da espera e do vazio que antes me atormentavam, fiquei a olhá-lo no quarto. Como se de repente aquela tela se transformasse numa enorme e misteriosa janela. Uma passagem para lugares dos quais imagino apenas o cheiro e onde vivem sombrios, frívolos, densos ou alegres moradores – figuras que, apesar de ainda desconhecer os nomes, já tenho comigo as lembranças e sussurros.

Sistemas

25/06/2008

Entro no Posto de Saúde do bairro munida de todos os documentos. Ao ver-me, a mulher do balcão me olha com a mesma cara de poucos amigos do dia anterior e estende seus olhos miúdos para o relógio pregado na parede ao lado. São 16h40min.

Mirando os ponteiros, o corpo inteiro da atendente demonstra inquietação: sua mão direita se contrai, segurando com força a caneta sem tampa; a perna agita-se impaciente e o rosto, crispado, torna-se ainda mais rígido. Quase posso ouvi-la rosnar "vinte minutos, vinte minutos!". Este é o tempo que lhe impede de dizer-me que lamenta, mas não é possível atender-me. "Volte amanhã, o expediente encerrou".

Enquanto se contorce na fúria silenciosa, permaneço quieta. Não posso garantir, mas imagino que meu semblante é plácido e o sorriso, apaziguador: "Sim, trouxe todos os documentos comigo". Tão logo escuta a minha resposta, a mocinha ao lado sorri. Penso que foi uma pena não ter sido atendida por ela da outra vez, quando, após 40 minutos de espera, fui informada de que, para medir a pressão, eu precisava levar os cartões do SUS e do posto, carteira de identidade e o comprovante de residência. Sei que não mudaria o desfecho, mas pela simples razão de ela sorrir, tenho a impressão de que eu não teria voltado para casa com a mesma frustração, a mesma sensação de tempo perdido.

Mas agora não lamento ser a mal-encarada quem me recebe ao balcão. Pois quero mostrar-lhe que voltei. Voltei com a mesma paciência do dia anterior e, apesar da sala vazia, fiz questão de pegar uma senha e aguardar. Porque aprendi o quanto isso a tranqüiliza. O quanto ela precisa exercer esse poder que a burocracia nos impele com seus papéis, normas, senhas e filas.

Quero apenas medir minha pressão e, ainda que eu saiba que para isso há três enfermeiras – vejo-as sentadas ao final do corredor, atrás da porta de vidro, conversando animadamente –, eu espero. Espero que a mulher que me atende resolva olhar-me novamente nos olhos, que pegue os documentos estendidos por minha mão e que me diga se posso ou não entrar.

São constrangedores os minutos. Tanto que chego a desconfiar se a mulher não está deixando o tempo correr apenas para depois, marcadas as 17 horas no relógio, me dizer "o expediente encerrou, volte amanhã". Essa idéia faz-me desanimar. Sinto um sorriso desconcertado em meu rosto e, já quase desistindo, pergunto-lhe se esqueci de algo.

A outra não responde. A mocinha ao lado olha, então, para a companheira de trabalho e percebe que algo está errado. "Você precisa entrar com sua matrícula e senha", ela diz. "Como?", pergunta a mais velha. A mocinha sorri novamente, levanta de sua cadeira e depois inclina o corpo para a colega. "Está pedindo sua senha, você lembra qual é?".

A esta pergunta, a expressão rígida da outra vai amolecendo. Seus olhos ficam perdidos, ela balbucia algo inaudível e deixa as mãos paradas no ar, como se estivessem pescando, no nada, as letras de sua senha. De repente, percebo que não é mais a funcionária amarga e burocrática que está à minha frente, mas uma senhora preocupada em domar os mistérios que aquela enorme tela lhe abria.

Para mostrar-lhe que sou solidária à sua visível dificuldade em lidar com a informatização, pergunto-lhe: "sistema novo?". Ela meneia a cabeça dizendo que sim e, de repente, sorri. Um sorriso acanhado que vai ganhando força para desabrochar numa quase gargalhada: "Ai, essas máquinas! Eu tenho certeza de que minha senha é esta!".

São feitas outras tentativas, mas o computador insiste em rejeitar a senha. Como não consegue entrar no sistema, a mulher pede que a mocinha me atenda. Ela preenche os dados na máquina com tranqüilidade e diz "agora é só aguardar". Abro então a porta de vidro e sigo no corredor vazio até o conjunto de cadeiras azuis. E já quase esquecida de que estou ali para medir a pressão, deixo que meus pensamentos corram soltos enquanto espero.

Urgências

11/06/2008

É cedo ainda, mas as urgências diárias lhe roubam o sono. Pesa-lhe a preocupação de colocar os sacos para fora, não perdendo a passagem do caminhão de lixo. E ainda a comida dos gatos que, por esquecimento, ficaram à deriva durante toda a noite. Seus miados atravessam as paredes ainda frias da madrugada e chegam até seus ouvidos feito lamento de filho. Ela lembra, então, que nunca quis gatos em casa. Mas agora que os tem, não consegue simplesmente virar-lhes as costas.

Os gatos ouvem seus passos silenciosos na sala e prostram-se em frente à porta, esperando que ela seja aberta. O mais velho mantém o hábito de acompanhá-la até a rua enquanto ela deposita na calçada o lixo da casa. Para lembrá-la de suas ausências, costuma atrair para si o olhar embebido de sono, soltando depois um miado solitário e desconcertante. Ao que normalmente ela responde com um afago, um pote transbordando de ração e a lembrança de que não é ela a sua dona.

Bem poderia voltar a dormir, mas agora são seus pensamentos que não lhe deixam retornar ao calor da cama e dos lençóis. Abandonada de si, ela cavalga palavras ainda não ditas e deixa-se perder por labirintos dos quais nunca sabe o fim. É a quase penumbra da casa que a inspira. Essa quietude morna, branca e displicente da manhã que ainda não se revelou.

Nesses momentos, há nela um gigante acordado. Uma fera aparentemente mansa, esquecida de suas fúrias e medos. Um bicho que ela gosta de apreciar em silêncio e à distância, como se dela não fizesse parte. E para não correr o risco de afugentar-lhe, mantém quietas as mãos, os pés e todos os membros do corpo. Sua respiração é quase inaudível: a casa precisa continuar a dormir.

Os primeiros raios de sol atravessam a vidraça e pousam em seu colo, despertando-a de suas aventuras. Rapidamente ela afugenta o gigante, devolve as palavras aos campos desnudos, recolhendo também o barbante em seus corredores.

Mais um pouco, ela ouvirá o som surdo de sapatos tropeçando nos paralelepípedos e acompanhará a sonolenta passagem das crianças a caminho da escola. Enquanto isso, segue até o banheiro, levanta o rosto para o espelho e suspira. Há uma nuvem em seu olhar. Uma urgência muda que lhe finca na pele novas rugas e na cabeleira, cada vez mais rala, fios translúcidos que ela tentará, em vão, esconder.

Vê surgir extensas listas de urgências, algumas acompanhadas de uma profunda e dolorosa ausência. Pensa no emprego, na casa, no dinheiro para as contas, na escola das crianças, no médico, no dentista e em tantas outras que compõem sua vida. Lembra-se, com ironia, do que foi perdendo pelo caminho. Dos pedaços que deixou grudados em galhos secos, das mãos que lhe roubaram os sonhos mais antigos e das lembranças que foi obrigada a esquecer.

Uma sombra que poderia fazê-la sucumbir de vez, mas que ela afasta com um gesto suave, quase um aceno. Um movimento generoso que desvanece a expressão carregada de ausências e faz surgir, por um instante, a menina de outrora.

Já é dia. E a criançada segue em grupo, num barulho que a retirará do transe. Dessa dormência na qual ela mergulha toda manhã, antes de ouvir o ressonar tranqüilo no quarto ao lado, de estender seu olhar pela paisagem da janela e se deixar levar pelas pequenas realizações cotidianas.

Delírios Noturnos

04/06/2008

Acompanho as sombras grudadas no chão, nas paredes, no teto que reflete a luz tíbia do poste vizinho. Sinto o tremor dos vidros na janela. O ar gelado vara as frestas, penetra minha pele e alcança os ossos, agora tão cansados. Sobre o telhado, a chuva fina e impaciente anuncia que a manhã chegará trazendo ainda mais frio. A casa toda é silêncio.

A madrugada avança e permaneço largada na cama, sem mão amiga para afastar do rosto os cabelos em desalinho. Uma sensação de abandono que vai amolecendo os músculos enquanto a memória busca, aflita, os cheiros e o calor da infância. Lembro-me do odor ácido do limão se desprendendo da panela, em meio a lascas de alho, e da minha mãe com a xícara de chá. Quero reter esta visão, prolongando sua aura de ternura. Mas a imagem se desvanece no ar, açoitada por um acesso ininterrupto de tosse.

Então corro para encontrá-la ainda mais longe, em pé e descalça no chão de cimento queimado. Vejo agora, em suas mãos, a polpa da jaca se desprendendo dos caroços e adivinho a cor escura do doce que logo ela irá servir. E ainda as folhas molhadas de sereno da erva-cidreira, do capim-limão, do mastruz que ela teima em bater com leite condensado, para acabar com os vermes.

Ouço sua voz chamando-me: “Vem tomar o remédio, filha”. E sigo-a em silêncio, já quase sentindo na boca o gosto amargo da copaíba misturado ao mel. Penso em dizer-lhe que sinto frio. Que meus membros tremem de dor e que a febre macula minha lucidez, atormentando-me com sombrias alucinações. Mas antes que eu pudesse tocá-la, os gatos da casa rasgam a quietude com seus gritos de cio e fome.

Sobressaltada, deixo rolar o corpo no colchão, afundo a cabeça nos travesseiros e experimento por alguns minutos a leveza de morrer.

Depois, já quase esquecida de minha fragilidade, caminho até a cozinha. E com os pensamentos ainda encharcados de desânimo, me deixo afogar na mistura de maleato de clorfenamina, paracetamol e cloridrato de fenilefrina. Esse líquido fumegante que me aquece a alma, anestesiando os sintomas desagradáveis do resfriado que insiste em me manter presa à cama e ao delírio.

Síndrome de Iago

28/05/2008

Descobri, com um atraso de quase três meses, que a lista dos pecados capitais ganhou novos itens. Agora, além dos sete famigerados – gula, luxúria, avareza, ira, vaidade, inveja e preguiça –, os cristãos devem pedir perdão também pela manipulação genética, o uso de drogas, a desigualdade social e a poluição ambiental.

Confesso que a notícia me desconcertou. Não pela esperada postura do Vaticano em relação aos avanços da Ciência, nem tampouco por sua surpreendente preocupação ecológica e social. Mas pela ausência daquele que considero o principal ingrediente do pecado: a paixão.

Como pecadora contumaz de dois dos grandes pecados – a gula e a preguiça –, posso afirmar que não fosse ela, a paixão, eu não pecaria. Porque certamente não me chamariam a atenção os chocolates nem tampouco a cama esparramada no quarto, ou o sofá e a rede. Aliás, esta é uma dúvida que sempre tive: por que a gula e a preguiça são consideradas pecados? Acaso não sabia a Igreja o quanto é bom refestelar-se à mesa e depois descansar sem culpa?

Além da gula e da preguiça, acho que a luxúria tem seus encantos. É um pecado que, definitivamente, vale cometer pelo menos uma vez na vida. O mesmo não posso dizer da ira – mas que mãe ou pai está livre de experimentá-la? – e da avareza, pecadozinho sem-vergonha que nós, pobres, estamos praticamente isentos de cometer. Já a vaidade, na época em que vivemos, deveria ser banida de vez da lista dos pecados mortais. Do contrário, não sobrarão muitos para povoar o céu.

Resta, portanto, aquela que considero a mais funesta das paixões humanas: a inveja. É claro que não me refiro ao sentimento mesquinho, mas inofensivo, de cobiçar, por alguns instantes, o que não lhe pertence. Isso pode explicar o hábito de fazer uso da expressão “que inveja!” quando um amigo nos avisa que irá fazer um doutorado no exterior. Mas nunca, nunca os demônios que se enroscam na mente do invejoso. Nem tampouco as lanças sempre afiadas de seu olhar.

E engana-se quem acredita que esta pérfida senhora é companhia apenas daqueles que não possuem inteligência ou talento. Não se deixe iludir, leitor. Porque a inveja não escolhe cor, credo nem tampouco massa cinzenta. Como uma parasita, ela se aloja naquele que melhor puder alimentá-la. E segue devorando-lhe a alma e dilacerando-lhe a carne.

Infelizmente, e a literatura está cheia de exemplos, a inveja é uma paixão que se compraz com a desgraça do outro. E se na vida real é verdade que a maioria dos invejosos não chega ao extremo de matar aquele que é o objeto de seus desejos mais recônditos, também é certo que nunca, em hipótese alguma, lhe deseja o bem. Porque não há nada pior para este pecador do que a felicidade daquele que inveja. Por ele, o outro poderia morrer de câncer, perder a mulher (ou o marido), os filhos, a casa, o emprego. Toda a tragédia alheia é pouca para o invejoso.

Não bastasse isso, há ainda outra certeza em relação a tal indivíduo: ele procura estar sempre próximo ao seu objeto de desejo. Isso é tenebroso, realmente assustador. Porque como não desconfia do sombrio sentimento, e muito menos das vontades mórbidas do invejoso, o outro segue na inocência de um cordeiro no pasto. Sem imaginar, em nenhum momento, ser a razão da baba que escorre na boca do invejoso em seus piores pesadelos.

Não, não há desculpa para a inveja. Ela é, certamente, a essência do pecado.

Consciência de Ameba

21/05/2008

“Na próxima encarnação, quero ser uma ameba”. Confesso, sem nenhum orgulho, que esta declaração foi dada por mim na última vez em que reuni amigos em casa. Pelo menos é o que garantem alguns dos presentes, já que a recordação mais confiável que guardo do episódio – quando foram consumidas três caixas de cervejas – é a de que discutíamos sobre a relação do conhecimento com a felicidade.

Uma relação que sempre considerei delicada. Porque em diversos momentos da minha vida tive a sensação de que o conhecimento é um poço sem fundo, com nuances de luz e escuridão assombrando a alma dos indivíduos. E quanta inveja já senti daqueles que ignoram os livros, as revoluções, as artes, as ciências, a história da humanidade. Daqueles que se locupletam na sabedoria que nasce das coisas simples do cotidiano: cuidar dos filhos, criar os netos.

São essas pessoas, que a arrogância intelectual costuma zombar, que melhor compreendem o valor da solidariedade. São elas que mais rápido estenderão a mão na hora do sofrimento, do desespero, da tragédia. Elas não o conhecem, mas sentem a sua dor e dividem, na agonia, o último pedaço de pão à mesa. Abrem as portas da casa, dão a você a própria cama e se estendem no chão, felizes por ajudar.

Fico então a lembrar da luz redentora de Platão e me pergunto: de que vale o conhecimento sem a solidariedade? Para que servem, afinal, os livros na estante, os museus, os filmes vistos, os cursos concluídos e os países visitados senão para alimentar a alma e a consciência? E que tipo de consciência menospreza o outro?

Foi aí que lembrei da história da ameba. Porque esta semana, logo após termos assistido às últimas notícias sobre o resgate das vítimas de Sichuan, minha filha de dez anos reclamou do mingau de aveia servido no café da manhã. “Que horror, mãe! Não quero tomar mingau”. Ah, foi como se eu tivesse recebido um soco no estômago vazio...

É claro que mesmo fazendo o comentário, ela tomou o mingau. E ainda deixou escorrer algumas lágrimas quando eu a lembrei de que a vida é muito curta e sem nenhuma garantia. Que enquanto sentamos à mesa, milhares e milhares de crianças e adultos tombam ao chão, vítimas da fome e da ignorância do homem. Que no mesmo instante que uma criança reclama aos pais que precisa trocar seu celular, mp4 e computador, um lar é devastado do outro lado do mundo pelas forças da natureza.

Não, não quero falhar pela omissão. E não me importo de fazer-lhe chorar mostrando-lhe a dor do outro. Porque, no fim, não acredito em nada que não seja verdadeiro o suficiente para nos fazer sentir não apenas a alegria e o êxtase, mas principalmente o sofrimento e a angústia, sentimentos genuinamente humanos.

E como não quero correr o risco de ver minhas filhas transformadas em seres cujas consciências assemelham-se mesmo à de uma ameba, lembro-as sempre das coisas simples da vida. Da importância de respeitar e enxergar o outro. De estender a mão, abrir as portas da casa e oferecer a própria cama na hora da agonia.

É claro que também lhes mostro bons livros, filmes, música. Mas sempre na esperança de que o conhecimento lhes sirva para alimentar a inquietação e a solidariedade.

Vampiros e Assombrações

14/05/2008

Começou na infância a minha fascinação pelo sobrenatural. Lembro que as primeiras histórias que ouvi do gênero foram contadas por minha mãe. Eram casos supostamente reais, alguns com seres fantasmagóricos, ocorridos na antiga fazenda de meu bisavô paterno, no sertão nordestino.

Vêm daí as imagens que ainda hoje povoam alguns de meus pesadelos, como a casa abandonada de onde se ouviam estranhos lamentos e as luzes no túmulo de Maria Matilde, que os peões da fazenda acreditavam ser metade cobra, metade mulher. Personagens assim me causaram as primeiras impressões de curiosidade e medo. Sensações tão boas que não adiantaram as posteriores explicações maternas sobre o pânico que os antigos tinham pela lepra e a ocorrência natural do fogo-fátuo: eu descobrira que o desconhecido tornava o mundo mais interessante.

Mais tarde, já consciente da vastidão do sobrenatural, enveredei por novos caminhos. Não me bastavam mais as lembranças de minha mãe, os “causos” de seringueiros, nem as lendas da carona do cemitério ou da mulher de branco. Foi quando descobri os contos de Poe – um deles, o gato preto, marcou-me de tal maneira que até hoje me assustam os felinos desta cor – e os filmes de qualidade duvidosa que assistia junto a uma turma de amigos, nas madrugadas de sextas e sábados.

No final da adolescência, comecei a sentir uma atração particular por vampiros. Assisti a todos os filmes e me arrepiei com todo tipo de vampiro, do mais grotesco ao inesquecível Vlad, de Bram Stocker. Tudo porque, além de me assustarem, achava-os atraentes. Comovia-me imaginá-los fadados a sugar o sangue e a vida alheios para viver a eternidade.

Mas claro que essa sina só faz sentido na ficção. Porque, no mundo real, não há nada pior do que ser obrigado a conviver com um vampiro. Sim, eles existem. E não são difíceis de serem reconhecidos. O problema é que, assim como os personagens do cinema, os vampiros reais têm lá o seu charme. Do contrário, como atrairiam suas vítimas?

Bonitos ou inteligentes – e Deus o livre existir um que reúna ambas as qualidades! –, tais vampiros sofrem por motivos banais como a insegurança, o medo e o recalque. Aliás, desconfio que este último seja o motivo que leva um vampiro a colecionar um número maior de vítimas. Porque, dependendo do tamanho do recalque, não bastará a ele sugar os sonhos, as esperanças, os projetos: será preciso aniquilar o outro.

Bom, mas não era sobre isso que eu queria falar. Comecei confessando que vem da infância a minha fascinação pelo sobrenatural. E é a este assunto que preciso retornar para dizer que me agrada imaginar um mundo cuja totalidade dos mistérios nos é negada. Acima de tudo, me agrada a existência do desconhecido. Porque são os seus portões que a imaginação se esforça para abrir.

E ainda que eu saiba que grande risco corre aqueles que não crêem na existência de vampiros, me dói mais imaginar um mundo sem mistérios.

Abril sem Fumaça

07/05/2008

Gosto de abril. Descobri que é perfeito na hora de preparar o espírito e a casa para os dias frios que logo chegarão. Lavar cobertores, arrumar agasalhos, espalhar tapetes pelos quartos. Faz-me recordar do tear. Aquele que passou todo o verão escondido e agora parece sussurrar: “Ainda posso cumprir as promessas do inverno passado”.

Por todo abril, caminhei procurando árvores nuas. Mas os morros da ilha revestem-se de verde e apenas uma ou outra espécie rasga o céu com seus galhos desnudos. Ainda assim, abril me enternece. Gosto do cheiro úmido que sinto no ar, no final da tarde, e do barulho das folhas no chão, quando arrastadas pelo vento. Tais impressões me levam a pensar na obviedade do charme outonal. Sim, abril ficou ainda mais bonito.

Mas, mesmo reconhecendo isso, não posso afirmar que o outono seja a única razão de minha empatia. Porque a verdade é que tudo me encanta mais nesta época do ano, esteja eu onde estiver. No Acre, terra onde passei a maior parte da minha vida, o mês de abril chegava trazendo alegria nas últimas chuvas do inverno amazônico. Era o fim da lama, acompanhado da abertura de estradas e ramais – até então, isolados pela estação chuvosa. Uma trégua que acalmaria também as tristonhas orquestras de sapos – aquietando meu coração, tão inclinado à melancolia.

E, se eu tivesse que expressar em uma única palavra o significado de abril, eu diria: promessa. Porque seco ou úmido, seu ar sempre exalou um odor de espera. A espera pelo fim da chuva; por um dia de sol para secar as roupas e, agora, pelo frio.

Mas há algo, neste abril, me entristecendo. Uma voz constante, uma contagem progressiva martelando na minha cabeça. Agora mesmo, ela avisa: você acabou de completar 27 dias, duas horas e 35 segundos sem fumar. Tento silenciá-la, gritando “Deixe-me em paz, quero apenas seguir olhando abril”, mas de nada adianta. Porque o relógio invisível segue contando os segundos, os minutos, as horas dessa agonia. E eu, que queria apenas contemplar as manhãs de abril, sinto-me massacrada pela ausência daquele que foi, por 17 anos, meu companheiro de todas as horas.

Então saio à rua. Distribuo “bons dias” aos vizinhos e sigo para a padaria. Lá, entre o pão e o troco, há sempre algum desconhecido disposto a escutar-me dizer “parei de fumar”. Porque é imperioso que eu repita isso. Não para que os outros saibam, nem mesmo para ouvir as felicitações. Mas para que eu mesma escute. E não esqueça da promessa de que este esforço me devolverá a respiração fácil, o olfato apurado, o paladar aguçado e um pulmão novinho, em dez anos.

Até lá, sigo me esquivando dos açoites invisíveis. Das chicotadas que cortam minha carne em meio às madrugadas, abrindo enormes interrogações. Conseguirei escrever sem o cigarro? Ah, essa promessa que é abril...

Abril simplesmente me soa poético. É o mês no qual mais tempo eu gasto contemplando a chuva ou o sol.

Homens do Mar

22/04/2008


Ela sentou-se e começou a falar de um barco. Trazia agarrada às mãos o novo namorado, um pescador que tinha conhecido há cerca de um mês, quando comprava peixe na praia para um jantar que daria aos amigos. Da areia, apontava para o oceano e dizia que seu sonho era comprar o tal barco e navegar sem destino por aquelas águas.

Lúcia tinha acabado de retornar da Itália, onde viveu por quatro anos. Conhecemo-nos através de amigos que me falavam de sua paixão pela oceanografia e de algumas loucuras, como a de ter abandonado o curso, no último período, para fazer Biologia. Quando conversamos pela primeira vez, ela contou-me diversas histórias e me fez crer que, apesar de ter desistido da oceanografia, o mar era uma presença constante em sua vida. Sua tese de doutorado, na qual foi aprovada com louvor, tratava de algum aspecto confuso da biologia marinha. Não arrisco dizer qual, já que de peixes e mar só conheço o sabor e a delícia.

Mas naquela tarde, apesar de gostar de ouvi-la falar, não eram seus projetos que me chamavam a atenção. E sim a figura silenciosa que permanecia ao seu lado e enrolava cachos do cabelo dela nos dedos, enquanto mirava o mar. Pedro, era este o nome do rapaz, não era o primeiro que Lúcia me apresentava. Não tínhamos muita intimidade, mas me divertia vendo-a dizer às gargalhadas que não resistia a um “homem do mar”.

Sobre os namorados, todos pescadores, ela gostava de lembrar que, no começo, os amigos olhavam ressabiados. Não compreendiam como era possível que alguém inteligente, que falava várias línguas e tinha estudado na Europa pudesse ter como companhia homens cujo conhecimento vinha tão somente da experiência com o mar. Nesses momentos, Lúcia parecia inquietar-se. Mas logo recuperava o largo sorriso e finalizava a história comemorando: “Agora já estão acostumados”.

Não sei exatamente o que em Pedro me soava diferente da habitual timidez que pude perceber em outros amores de Lúcia. Talvez fosse o olhar, que parecia se perder e se encontrar longe, no horizonte. Ou ainda a atitude quase mecânica de enrolar os cachos de Lúcia entre os dedos, como se os fios fossem uma espécie de âncora que o mantinha afastado de algo maior e mais misterioso do que o mar ao qual ele estava acostumado.

E se faço essa associação com âncoras é porque até hoje me enternece saber que, meses depois do encontro que tive com o casal, Pedro perdeu-se em um naufrágio. A notícia, dada por um dos melhores amigos de Lúcia, veio acrescida de comentários que acabaram me fazendo compreender melhor a bióloga com quem tanto eu gostava de conversar. Segundo ele, Lúcia tinha abandonado a oceanografia na mesma época em que perdeu o pai, morto durante uma pescaria em alto mar.

Com a morte de Pedro, ela acabou comprando um barco (quem sabe o mesmo que havia me falado naquela tarde em que estivemos juntas na praia), demitiu-se do emprego, vendeu a casa e saiu sem destino pelo oceano.

Há dois anos não tenho notícias dela. Mas quero crer que segue singrando as águas e procurando encontrar não apenas seus amores chamados pelo mar, mas a si mesma.