sábado

Constância e Paciência

02/09/2008

Não acompanhei os jogos olímpicos, não sei em que pé está a inflação do país, a briga entre Marta e Alckmin pela prefeitura de São Paulo ou a candidatura de Obama, nos Estados Unidos. Ando também alheia às notícias sobre os 50 anos de Madonna e confesso: não faço a mínima idéia de quem é (ou do que se trata) a mulher-melancia.

Sim, ando distraída. Devo isto aos contratempos do cotidiano. A esse horizonte cinza que despeja nas ruas a bruma tênue de agosto: “O mês do cachorro-louco”, escreveu-me uma amiga. Sorrio. E ainda impregnada dos odores da cozinha, me pego constatando que a ventania do final de semana arrastou as telhas de uma casa vizinha, e que por muito pouco não perdi meu PC para as goteiras que açoitaram o quarto na última chuva: é o mês do cachorro-louco!

Lembrei-me da mulher dos biscoitos. Encontrei-a vendendo folheados no caminho da Praia da Armação. Chama-se Rosalia – o nome, de origem espanhola, foi dado pelo pai em homenagem a uma prima que falecera ainda na infância – e mudou-se há apenas uma semana para o Sul da ilha.

Seus biscoitos são feitos em massa finíssima, recheados com doce-de-leite, goiaba, maçã com canela, banana ou chocolate. Deliciosos. Comprei-os, a primeira vez, por vontade de provar a guloseima. Mas também por solidariedade, por saber como é difícil chegar a terras alheias trazendo na bagagem o sonho de construir um lar.

No dia seguinte, porém, peguei-me seguindo-a na pista principal. Levava comigo o dinheiro para uma quantia maior de biscoitos e a recomendação expressa da filha caçula de que comprasse os de chocolate.

Desta vez, aproveitei a ocasião para perguntar-lhe sobre as vendas. Rosalia, com a bandeja de doces na mão, resumiu: “Leva tempo para ganhar a confiança das pessoas”. E como que para explicar-me a resignação, contou-me sobre a experiência do irmão em Portugal: “Imagine que demorou mais de um ano para que ele fosse convidado à casa de um vizinho!”.

Depois, sem pressa, falou-me de sua própria experiência na Barra da Lagoa, lugar que havia morado antes de mudar-se para a Armação. “Acho que aqui, como em Portugal, os moradores querem ter a certeza de que você vem para ficar, para fazer parte da comunidade”, disse-me ela, confessando, logo em seguida, que apostava na constância e na paciência para vencer a resistência dos nativos da Ilha.

Fiquei ainda um bom tempo ouvindo as histórias de Rosalia, essa engenheira de 50 anos que trocou a cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, por Florianópolis. E que hoje anda mais de dez quilômetros por dia para pagar o aluguel e as contas de água, luz, telefone.

E ainda sentindo na boca o gosto dos delicados biscoitos feitos por ela, pensei no amigo que construiu a casa com as próprias mãos; no outro que a duras penas segue educando a filha com a feitura e a venda de sapatos em couro, e em mim mesma. Destinos que se cruzam nesta ilha cercada de beleza e desconfiança. Neste lugar que soaria inóspito não fossem a imensidão do mar, o verde dos morros e o assobio quase constante dos ventos.

Sim, é verdade que ando distraída. Agora mesmo, o que escuto é o coaxar triste dos sapos.

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