Ela sentou-se e começou a falar de um barco. Trazia agarrada às mãos o novo namorado, um pescador que tinha conhecido há cerca de um mês, quando comprava peixe na praia para um jantar que daria aos amigos. Da areia, apontava para o oceano e dizia que seu sonho era comprar o tal barco e navegar sem destino por aquelas águas.
Lúcia tinha acabado de retornar da Itália, onde viveu por quatro anos. Conhecemo-nos através de amigos que me falavam de sua paixão pela oceanografia e de algumas loucuras, como a de ter abandonado o curso, no último período, para fazer Biologia. Quando conversamos pela primeira vez, ela contou-me diversas histórias e me fez crer que, apesar de ter desistido da oceanografia, o mar era uma presença constante em sua vida. Sua tese de doutorado, na qual foi aprovada com louvor, tratava de algum aspecto confuso da biologia marinha. Não arrisco dizer qual, já que de peixes e mar só conheço o sabor e a delícia.
Mas naquela tarde, apesar de gostar de ouvi-la falar, não eram seus projetos que me chamavam a atenção. E sim a figura silenciosa que permanecia ao seu lado e enrolava cachos do cabelo dela nos dedos, enquanto mirava o mar. Pedro, era este o nome do rapaz, não era o primeiro que Lúcia me apresentava. Não tínhamos muita intimidade, mas me divertia vendo-a dizer às gargalhadas que não resistia a um “homem do mar”.
Sobre os namorados, todos pescadores, ela gostava de lembrar que, no começo, os amigos olhavam ressabiados. Não compreendiam como era possível que alguém inteligente, que falava várias línguas e tinha estudado na Europa pudesse ter como companhia homens cujo conhecimento vinha tão somente da experiência com o mar. Nesses momentos, Lúcia parecia inquietar-se. Mas logo recuperava o largo sorriso e finalizava a história comemorando: “Agora já estão acostumados”.
Não sei exatamente o que em Pedro me soava diferente da habitual timidez que pude perceber em outros amores de Lúcia. Talvez fosse o olhar, que parecia se perder e se encontrar longe, no horizonte. Ou ainda a atitude quase mecânica de enrolar os cachos de Lúcia entre os dedos, como se os fios fossem uma espécie de âncora que o mantinha afastado de algo maior e mais misterioso do que o mar ao qual ele estava acostumado.
E se faço essa associação com âncoras é porque até hoje me enternece saber que, meses depois do encontro que tive com o casal, Pedro perdeu-se em um naufrágio. A notícia, dada por um dos melhores amigos de Lúcia, veio acrescida de comentários que acabaram me fazendo compreender melhor a bióloga com quem tanto eu gostava de conversar. Segundo ele, Lúcia tinha abandonado a oceanografia na mesma época em que perdeu o pai, morto durante uma pescaria em alto mar.
Com a morte de Pedro, ela acabou comprando um barco (quem sabe o mesmo que havia me falado naquela tarde em que estivemos juntas na praia), demitiu-se do emprego, vendeu a casa e saiu sem destino pelo oceano.
Há dois anos não tenho notícias dela. Mas quero crer que segue singrando as águas e procurando encontrar não apenas seus amores chamados pelo mar, mas a si mesma.
Lúcia tinha acabado de retornar da Itália, onde viveu por quatro anos. Conhecemo-nos através de amigos que me falavam de sua paixão pela oceanografia e de algumas loucuras, como a de ter abandonado o curso, no último período, para fazer Biologia. Quando conversamos pela primeira vez, ela contou-me diversas histórias e me fez crer que, apesar de ter desistido da oceanografia, o mar era uma presença constante em sua vida. Sua tese de doutorado, na qual foi aprovada com louvor, tratava de algum aspecto confuso da biologia marinha. Não arrisco dizer qual, já que de peixes e mar só conheço o sabor e a delícia.
Mas naquela tarde, apesar de gostar de ouvi-la falar, não eram seus projetos que me chamavam a atenção. E sim a figura silenciosa que permanecia ao seu lado e enrolava cachos do cabelo dela nos dedos, enquanto mirava o mar. Pedro, era este o nome do rapaz, não era o primeiro que Lúcia me apresentava. Não tínhamos muita intimidade, mas me divertia vendo-a dizer às gargalhadas que não resistia a um “homem do mar”.
Sobre os namorados, todos pescadores, ela gostava de lembrar que, no começo, os amigos olhavam ressabiados. Não compreendiam como era possível que alguém inteligente, que falava várias línguas e tinha estudado na Europa pudesse ter como companhia homens cujo conhecimento vinha tão somente da experiência com o mar. Nesses momentos, Lúcia parecia inquietar-se. Mas logo recuperava o largo sorriso e finalizava a história comemorando: “Agora já estão acostumados”.
Não sei exatamente o que em Pedro me soava diferente da habitual timidez que pude perceber em outros amores de Lúcia. Talvez fosse o olhar, que parecia se perder e se encontrar longe, no horizonte. Ou ainda a atitude quase mecânica de enrolar os cachos de Lúcia entre os dedos, como se os fios fossem uma espécie de âncora que o mantinha afastado de algo maior e mais misterioso do que o mar ao qual ele estava acostumado.
E se faço essa associação com âncoras é porque até hoje me enternece saber que, meses depois do encontro que tive com o casal, Pedro perdeu-se em um naufrágio. A notícia, dada por um dos melhores amigos de Lúcia, veio acrescida de comentários que acabaram me fazendo compreender melhor a bióloga com quem tanto eu gostava de conversar. Segundo ele, Lúcia tinha abandonado a oceanografia na mesma época em que perdeu o pai, morto durante uma pescaria em alto mar.
Com a morte de Pedro, ela acabou comprando um barco (quem sabe o mesmo que havia me falado naquela tarde em que estivemos juntas na praia), demitiu-se do emprego, vendeu a casa e saiu sem destino pelo oceano.
Há dois anos não tenho notícias dela. Mas quero crer que segue singrando as águas e procurando encontrar não apenas seus amores chamados pelo mar, mas a si mesma.
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