Foram apenas dois meses sem ele. Mas senti como se fosse uma eternidade porque, quando amamos, o tempo sempre parece mais arrastado. E o que faz uma mulher fadada a esperar por seu amor? Ora, não tendo o dom de tecer, há que encontrar outra ocupação.
Comecei desentupindo os tubos de tinta a óleo, lavando os pincéis e procurando qualquer superfície sólida onde pudesse jogar as tintas. Desse exercício saíram vidros de palmito vermelho com formas seminuas e cabelos que lembravam o fogo; bancos de madeira coloridos; porta-toalhas com flores e pinceladas que transformaram o banheiro num espaço multifacetado, onde as cores e suas nuances se dobravam à luz do dia feito amante cedendo aos desejos.
No entanto, como não podia transformar o apartamento alugado numa galeria psicodélica, percebi que a pintura não seria suficiente para abrandar a saudade. Tal constatação me levou a buscar refúgio nos livros, ainda que eles me fizessem sofrer mais.
Após noites e noites sem dormir, comecei a duvidar de tudo. E como se a casa não abrigasse outra coisa além do vazio, procurei as lembranças. Era como destampar um antigo baú e retirar de lá velhas correspondências. Cartas amareladas, fotografias em preto e branco e pedaços de fitas enroladas em seda. Ah, quantas histórias escondidas ali ainda repousam aguardando o momento em que algo as desperte...
Com o passar do tempo, a espera foi ficando insuportável. Não havia mais tinta, livro ou lembrança que pudesse aplacar meus sentimentos. Ou a angústia que crescia. E depois das diversas noites insones fui tomada por um desejo irremediável de me entregar à luxúria da cama, com seus lençóis e sonhos. E para não sucumbir ao silêncio da imobilidade, obriguei-me a deixar a janela entreaberta para que a fresta de luz me arrancasse da preguiça sonolenta de levantar sentindo no peito aquela ausência.
Os amigos e alguns parentes começaram a se preocupar. Não havia o que fazer? Queria dizer-lhes que não, não havia remédio. Mas como era quase impossível explicar o que eu sentia sem correr o risco de ser taxada de lunática, ainda que não me assuste de todo tal idéia, fui forçada a usar do disfarce.
Procurei, então, estar fora de casa a maior parte do tempo. Fiz diversas visitas sociais e até me dispus a caminhar no parque. Foi a maneira que encontrei para acreditarem que eu finalmente tinha vencido a dolorosa espera, me dobrando à razão.
Por fim, quando todos ao meu redor estavam mais calmos e eu mesma começava a pensar que não seria tão absurda a idéia de voltar a usar os cadernos, ele chegou. Vinha embalado com aqueles plásticos de bolinhas de ar que tanto me diverte e cheirava à coisa nova, fresca. Uma carcaça branca que em breve eu rechearia com os velhos textos, as velhas anotações e o eterno porvir.
Quase esquecida da espera e do vazio que antes me atormentavam, fiquei a olhá-lo no quarto. Como se de repente aquela tela se transformasse numa enorme e misteriosa janela. Uma passagem para lugares dos quais imagino apenas o cheiro e onde vivem sombrios, frívolos, densos ou alegres moradores – figuras que, apesar de ainda desconhecer os nomes, já tenho comigo as lembranças e sussurros.
Comecei desentupindo os tubos de tinta a óleo, lavando os pincéis e procurando qualquer superfície sólida onde pudesse jogar as tintas. Desse exercício saíram vidros de palmito vermelho com formas seminuas e cabelos que lembravam o fogo; bancos de madeira coloridos; porta-toalhas com flores e pinceladas que transformaram o banheiro num espaço multifacetado, onde as cores e suas nuances se dobravam à luz do dia feito amante cedendo aos desejos.
No entanto, como não podia transformar o apartamento alugado numa galeria psicodélica, percebi que a pintura não seria suficiente para abrandar a saudade. Tal constatação me levou a buscar refúgio nos livros, ainda que eles me fizessem sofrer mais.
Após noites e noites sem dormir, comecei a duvidar de tudo. E como se a casa não abrigasse outra coisa além do vazio, procurei as lembranças. Era como destampar um antigo baú e retirar de lá velhas correspondências. Cartas amareladas, fotografias em preto e branco e pedaços de fitas enroladas em seda. Ah, quantas histórias escondidas ali ainda repousam aguardando o momento em que algo as desperte...
Com o passar do tempo, a espera foi ficando insuportável. Não havia mais tinta, livro ou lembrança que pudesse aplacar meus sentimentos. Ou a angústia que crescia. E depois das diversas noites insones fui tomada por um desejo irremediável de me entregar à luxúria da cama, com seus lençóis e sonhos. E para não sucumbir ao silêncio da imobilidade, obriguei-me a deixar a janela entreaberta para que a fresta de luz me arrancasse da preguiça sonolenta de levantar sentindo no peito aquela ausência.
Os amigos e alguns parentes começaram a se preocupar. Não havia o que fazer? Queria dizer-lhes que não, não havia remédio. Mas como era quase impossível explicar o que eu sentia sem correr o risco de ser taxada de lunática, ainda que não me assuste de todo tal idéia, fui forçada a usar do disfarce.
Procurei, então, estar fora de casa a maior parte do tempo. Fiz diversas visitas sociais e até me dispus a caminhar no parque. Foi a maneira que encontrei para acreditarem que eu finalmente tinha vencido a dolorosa espera, me dobrando à razão.
Por fim, quando todos ao meu redor estavam mais calmos e eu mesma começava a pensar que não seria tão absurda a idéia de voltar a usar os cadernos, ele chegou. Vinha embalado com aqueles plásticos de bolinhas de ar que tanto me diverte e cheirava à coisa nova, fresca. Uma carcaça branca que em breve eu rechearia com os velhos textos, as velhas anotações e o eterno porvir.
Quase esquecida da espera e do vazio que antes me atormentavam, fiquei a olhá-lo no quarto. Como se de repente aquela tela se transformasse numa enorme e misteriosa janela. Uma passagem para lugares dos quais imagino apenas o cheiro e onde vivem sombrios, frívolos, densos ou alegres moradores – figuras que, apesar de ainda desconhecer os nomes, já tenho comigo as lembranças e sussurros.
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