Entro no Posto de Saúde do bairro munida de todos os documentos. Ao ver-me, a mulher do balcão me olha com a mesma cara de poucos amigos do dia anterior e estende seus olhos miúdos para o relógio pregado na parede ao lado. São 16h40min.
Mirando os ponteiros, o corpo inteiro da atendente demonstra inquietação: sua mão direita se contrai, segurando com força a caneta sem tampa; a perna agita-se impaciente e o rosto, crispado, torna-se ainda mais rígido. Quase posso ouvi-la rosnar "vinte minutos, vinte minutos!". Este é o tempo que lhe impede de dizer-me que lamenta, mas não é possível atender-me. "Volte amanhã, o expediente encerrou".
Enquanto se contorce na fúria silenciosa, permaneço quieta. Não posso garantir, mas imagino que meu semblante é plácido e o sorriso, apaziguador: "Sim, trouxe todos os documentos comigo". Tão logo escuta a minha resposta, a mocinha ao lado sorri. Penso que foi uma pena não ter sido atendida por ela da outra vez, quando, após 40 minutos de espera, fui informada de que, para medir a pressão, eu precisava levar os cartões do SUS e do posto, carteira de identidade e o comprovante de residência. Sei que não mudaria o desfecho, mas pela simples razão de ela sorrir, tenho a impressão de que eu não teria voltado para casa com a mesma frustração, a mesma sensação de tempo perdido.
Mas agora não lamento ser a mal-encarada quem me recebe ao balcão. Pois quero mostrar-lhe que voltei. Voltei com a mesma paciência do dia anterior e, apesar da sala vazia, fiz questão de pegar uma senha e aguardar. Porque aprendi o quanto isso a tranqüiliza. O quanto ela precisa exercer esse poder que a burocracia nos impele com seus papéis, normas, senhas e filas.
Quero apenas medir minha pressão e, ainda que eu saiba que para isso há três enfermeiras – vejo-as sentadas ao final do corredor, atrás da porta de vidro, conversando animadamente –, eu espero. Espero que a mulher que me atende resolva olhar-me novamente nos olhos, que pegue os documentos estendidos por minha mão e que me diga se posso ou não entrar.
São constrangedores os minutos. Tanto que chego a desconfiar se a mulher não está deixando o tempo correr apenas para depois, marcadas as 17 horas no relógio, me dizer "o expediente encerrou, volte amanhã". Essa idéia faz-me desanimar. Sinto um sorriso desconcertado em meu rosto e, já quase desistindo, pergunto-lhe se esqueci de algo.
A outra não responde. A mocinha ao lado olha, então, para a companheira de trabalho e percebe que algo está errado. "Você precisa entrar com sua matrícula e senha", ela diz. "Como?", pergunta a mais velha. A mocinha sorri novamente, levanta de sua cadeira e depois inclina o corpo para a colega. "Está pedindo sua senha, você lembra qual é?".
A esta pergunta, a expressão rígida da outra vai amolecendo. Seus olhos ficam perdidos, ela balbucia algo inaudível e deixa as mãos paradas no ar, como se estivessem pescando, no nada, as letras de sua senha. De repente, percebo que não é mais a funcionária amarga e burocrática que está à minha frente, mas uma senhora preocupada em domar os mistérios que aquela enorme tela lhe abria.
Para mostrar-lhe que sou solidária à sua visível dificuldade em lidar com a informatização, pergunto-lhe: "sistema novo?". Ela meneia a cabeça dizendo que sim e, de repente, sorri. Um sorriso acanhado que vai ganhando força para desabrochar numa quase gargalhada: "Ai, essas máquinas! Eu tenho certeza de que minha senha é esta!".
São feitas outras tentativas, mas o computador insiste em rejeitar a senha. Como não consegue entrar no sistema, a mulher pede que a mocinha me atenda. Ela preenche os dados na máquina com tranqüilidade e diz "agora é só aguardar". Abro então a porta de vidro e sigo no corredor vazio até o conjunto de cadeiras azuis. E já quase esquecida de que estou ali para medir a pressão, deixo que meus pensamentos corram soltos enquanto espero.
Mirando os ponteiros, o corpo inteiro da atendente demonstra inquietação: sua mão direita se contrai, segurando com força a caneta sem tampa; a perna agita-se impaciente e o rosto, crispado, torna-se ainda mais rígido. Quase posso ouvi-la rosnar "vinte minutos, vinte minutos!". Este é o tempo que lhe impede de dizer-me que lamenta, mas não é possível atender-me. "Volte amanhã, o expediente encerrou".
Enquanto se contorce na fúria silenciosa, permaneço quieta. Não posso garantir, mas imagino que meu semblante é plácido e o sorriso, apaziguador: "Sim, trouxe todos os documentos comigo". Tão logo escuta a minha resposta, a mocinha ao lado sorri. Penso que foi uma pena não ter sido atendida por ela da outra vez, quando, após 40 minutos de espera, fui informada de que, para medir a pressão, eu precisava levar os cartões do SUS e do posto, carteira de identidade e o comprovante de residência. Sei que não mudaria o desfecho, mas pela simples razão de ela sorrir, tenho a impressão de que eu não teria voltado para casa com a mesma frustração, a mesma sensação de tempo perdido.
Mas agora não lamento ser a mal-encarada quem me recebe ao balcão. Pois quero mostrar-lhe que voltei. Voltei com a mesma paciência do dia anterior e, apesar da sala vazia, fiz questão de pegar uma senha e aguardar. Porque aprendi o quanto isso a tranqüiliza. O quanto ela precisa exercer esse poder que a burocracia nos impele com seus papéis, normas, senhas e filas.
Quero apenas medir minha pressão e, ainda que eu saiba que para isso há três enfermeiras – vejo-as sentadas ao final do corredor, atrás da porta de vidro, conversando animadamente –, eu espero. Espero que a mulher que me atende resolva olhar-me novamente nos olhos, que pegue os documentos estendidos por minha mão e que me diga se posso ou não entrar.
São constrangedores os minutos. Tanto que chego a desconfiar se a mulher não está deixando o tempo correr apenas para depois, marcadas as 17 horas no relógio, me dizer "o expediente encerrou, volte amanhã". Essa idéia faz-me desanimar. Sinto um sorriso desconcertado em meu rosto e, já quase desistindo, pergunto-lhe se esqueci de algo.
A outra não responde. A mocinha ao lado olha, então, para a companheira de trabalho e percebe que algo está errado. "Você precisa entrar com sua matrícula e senha", ela diz. "Como?", pergunta a mais velha. A mocinha sorri novamente, levanta de sua cadeira e depois inclina o corpo para a colega. "Está pedindo sua senha, você lembra qual é?".
A esta pergunta, a expressão rígida da outra vai amolecendo. Seus olhos ficam perdidos, ela balbucia algo inaudível e deixa as mãos paradas no ar, como se estivessem pescando, no nada, as letras de sua senha. De repente, percebo que não é mais a funcionária amarga e burocrática que está à minha frente, mas uma senhora preocupada em domar os mistérios que aquela enorme tela lhe abria.
Para mostrar-lhe que sou solidária à sua visível dificuldade em lidar com a informatização, pergunto-lhe: "sistema novo?". Ela meneia a cabeça dizendo que sim e, de repente, sorri. Um sorriso acanhado que vai ganhando força para desabrochar numa quase gargalhada: "Ai, essas máquinas! Eu tenho certeza de que minha senha é esta!".
São feitas outras tentativas, mas o computador insiste em rejeitar a senha. Como não consegue entrar no sistema, a mulher pede que a mocinha me atenda. Ela preenche os dados na máquina com tranqüilidade e diz "agora é só aguardar". Abro então a porta de vidro e sigo no corredor vazio até o conjunto de cadeiras azuis. E já quase esquecida de que estou ali para medir a pressão, deixo que meus pensamentos corram soltos enquanto espero.
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