21/05/2008
“Na próxima encarnação, quero ser uma ameba”. Confesso, sem nenhum orgulho, que esta declaração foi dada por mim na última vez em que reuni amigos em casa. Pelo menos é o que garantem alguns dos presentes, já que a recordação mais confiável que guardo do episódio – quando foram consumidas três caixas de cervejas – é a de que discutíamos sobre a relação do conhecimento com a felicidade.
Uma relação que sempre considerei delicada. Porque em diversos momentos da minha vida tive a sensação de que o conhecimento é um poço sem fundo, com nuances de luz e escuridão assombrando a alma dos indivíduos. E quanta inveja já senti daqueles que ignoram os livros, as revoluções, as artes, as ciências, a história da humanidade. Daqueles que se locupletam na sabedoria que nasce das coisas simples do cotidiano: cuidar dos filhos, criar os netos.
São essas pessoas, que a arrogância intelectual costuma zombar, que melhor compreendem o valor da solidariedade. São elas que mais rápido estenderão a mão na hora do sofrimento, do desespero, da tragédia. Elas não o conhecem, mas sentem a sua dor e dividem, na agonia, o último pedaço de pão à mesa. Abrem as portas da casa, dão a você a própria cama e se estendem no chão, felizes por ajudar.
Fico então a lembrar da luz redentora de Platão e me pergunto: de que vale o conhecimento sem a solidariedade? Para que servem, afinal, os livros na estante, os museus, os filmes vistos, os cursos concluídos e os países visitados senão para alimentar a alma e a consciência? E que tipo de consciência menospreza o outro?
Foi aí que lembrei da história da ameba. Porque esta semana, logo após termos assistido às últimas notícias sobre o resgate das vítimas de Sichuan, minha filha de dez anos reclamou do mingau de aveia servido no café da manhã. “Que horror, mãe! Não quero tomar mingau”. Ah, foi como se eu tivesse recebido um soco no estômago vazio...
É claro que mesmo fazendo o comentário, ela tomou o mingau. E ainda deixou escorrer algumas lágrimas quando eu a lembrei de que a vida é muito curta e sem nenhuma garantia. Que enquanto sentamos à mesa, milhares e milhares de crianças e adultos tombam ao chão, vítimas da fome e da ignorância do homem. Que no mesmo instante que uma criança reclama aos pais que precisa trocar seu celular, mp4 e computador, um lar é devastado do outro lado do mundo pelas forças da natureza.
Não, não quero falhar pela omissão. E não me importo de fazer-lhe chorar mostrando-lhe a dor do outro. Porque, no fim, não acredito em nada que não seja verdadeiro o suficiente para nos fazer sentir não apenas a alegria e o êxtase, mas principalmente o sofrimento e a angústia, sentimentos genuinamente humanos.
E como não quero correr o risco de ver minhas filhas transformadas em seres cujas consciências assemelham-se mesmo à de uma ameba, lembro-as sempre das coisas simples da vida. Da importância de respeitar e enxergar o outro. De estender a mão, abrir as portas da casa e oferecer a própria cama na hora da agonia.
É claro que também lhes mostro bons livros, filmes, música. Mas sempre na esperança de que o conhecimento lhes sirva para alimentar a inquietação e a solidariedade.
“Na próxima encarnação, quero ser uma ameba”. Confesso, sem nenhum orgulho, que esta declaração foi dada por mim na última vez em que reuni amigos em casa. Pelo menos é o que garantem alguns dos presentes, já que a recordação mais confiável que guardo do episódio – quando foram consumidas três caixas de cervejas – é a de que discutíamos sobre a relação do conhecimento com a felicidade.
Uma relação que sempre considerei delicada. Porque em diversos momentos da minha vida tive a sensação de que o conhecimento é um poço sem fundo, com nuances de luz e escuridão assombrando a alma dos indivíduos. E quanta inveja já senti daqueles que ignoram os livros, as revoluções, as artes, as ciências, a história da humanidade. Daqueles que se locupletam na sabedoria que nasce das coisas simples do cotidiano: cuidar dos filhos, criar os netos.
São essas pessoas, que a arrogância intelectual costuma zombar, que melhor compreendem o valor da solidariedade. São elas que mais rápido estenderão a mão na hora do sofrimento, do desespero, da tragédia. Elas não o conhecem, mas sentem a sua dor e dividem, na agonia, o último pedaço de pão à mesa. Abrem as portas da casa, dão a você a própria cama e se estendem no chão, felizes por ajudar.
Fico então a lembrar da luz redentora de Platão e me pergunto: de que vale o conhecimento sem a solidariedade? Para que servem, afinal, os livros na estante, os museus, os filmes vistos, os cursos concluídos e os países visitados senão para alimentar a alma e a consciência? E que tipo de consciência menospreza o outro?
Foi aí que lembrei da história da ameba. Porque esta semana, logo após termos assistido às últimas notícias sobre o resgate das vítimas de Sichuan, minha filha de dez anos reclamou do mingau de aveia servido no café da manhã. “Que horror, mãe! Não quero tomar mingau”. Ah, foi como se eu tivesse recebido um soco no estômago vazio...
É claro que mesmo fazendo o comentário, ela tomou o mingau. E ainda deixou escorrer algumas lágrimas quando eu a lembrei de que a vida é muito curta e sem nenhuma garantia. Que enquanto sentamos à mesa, milhares e milhares de crianças e adultos tombam ao chão, vítimas da fome e da ignorância do homem. Que no mesmo instante que uma criança reclama aos pais que precisa trocar seu celular, mp4 e computador, um lar é devastado do outro lado do mundo pelas forças da natureza.
Não, não quero falhar pela omissão. E não me importo de fazer-lhe chorar mostrando-lhe a dor do outro. Porque, no fim, não acredito em nada que não seja verdadeiro o suficiente para nos fazer sentir não apenas a alegria e o êxtase, mas principalmente o sofrimento e a angústia, sentimentos genuinamente humanos.
E como não quero correr o risco de ver minhas filhas transformadas em seres cujas consciências assemelham-se mesmo à de uma ameba, lembro-as sempre das coisas simples da vida. Da importância de respeitar e enxergar o outro. De estender a mão, abrir as portas da casa e oferecer a própria cama na hora da agonia.
É claro que também lhes mostro bons livros, filmes, música. Mas sempre na esperança de que o conhecimento lhes sirva para alimentar a inquietação e a solidariedade.
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