sábado

Cidade do Desejo

12/11/2008

Durante toda a madrugada, a chuva. Sentia os pingos grossos ferindo as janelas e as laterais do ônibus, e ainda sob o efeito do remédio para evitar o previsível enjôo, enrolei-me na manta xadrez buscando, na poltrona, uma posição que me lembrasse a cama deixada para trás. Àquela altura, não me interessavam as obras na estrada nem tampouco os faróis que possivelmente cruzavam em sentido contrário. Porque a quietude arrastava-me para o perigoso território dos sonhos que temos ainda acordados.

Logo as imagens da semana anterior invadiram a memória misturando-se aos diversos cheiros, cores e sensações que trazia comigo das primeiras caminhadas que fiz pelo centro de Porto Alegre, durante a 54ª edição da Feira do Livro. Além das bancas de editoras e livrarias espalhadas pelas alamedas, impressionaram-me as sombras e o colorido das árvores na Praça; a beleza arquitetônica dos prédios históricos; as calçadas largas e as esquinas ainda acordando enquanto seguia a bengala de um senhor com ares de Mário Quintana. Ah, em quantas ruas, bancos, janelas e passagens desta cidade multiplicou-se o poeta?

Não foram poucas as mudanças de cidade que fiz. E pensando nelas, ocorre-me agora a certeza de que todas foram impulsionadas pelo desejo, uma fome silenciosa que queima as entranhas e me empurra ao desconhecido, na tentativa de saciá-la. Nunca sei ao certo o que busca meu espírito, algumas vezes penso ser o silêncio das matas ou o barulho da onda estourando nas pedras. Em outras, tenho a certeza de que vaga arranhando o asfalto, marcando com sangue as paredes cinza de uma grande cidade.

Sim, deixei-me muitas vezes levar por esta inquietude sem nome. A mesma que agora me faz suspirar ao reviver os momentos de descoberta de Porto Alegre. Porque há, eu sei, eu sinto, um espírito que dorme em cada cidade. E depende apenas do viajante descobrir-lhe a forma, os movimentos, a essência. Na capital gaúcha, creio, vive um espírito benfazejo. Um ser de múltiplas cores cuja grandeza se espalha pelas pedras do calçamento, pelas paredes chorosas, a quietude do Guaíba, os espaços culturais, o Mercado Público, os cafés e ainda nos cabelos coloridos dos jovens.

Lembrei-me da conversa que tive com o motorista de táxi que me levara, dias antes, ao aeroporto. “A senhora não imagina o que é o clima desta cidade, mas ainda assim, amo morar aqui”, dizia o homem. “Vai para onde?”, perguntou-me. E após ouvir-me dizer que voltava para Florianópolis, onde vivo há dois anos, emendou: “Imagine, se tivéssemos também praias como as de lá, bah!”. Eu ri e com toda a sinceridade de quem partia com vontade de voltar, garanti-lhe que a ausência de praia não diminuía em nada o charme de Porto Alegre.

Porque acredito que a beleza não está apenas no que ilumina o olhar, mas principalmente no que enternece a alma. Sensação que experimentei várias vezes ao longo de minha vida e que repeti neste novembro chuvoso, enquanto descobria, acompanhada apenas de minha solidão, os segredos de Porto Alegre.

Desta cidade cujo céu acaba de varar pela fresta da janela do ônibus. E eu, como se revisitasse uma antiga morada, me preparo para andar novamente pelas ruas do Centro da cidade, lugar onde minha inquietude parece ter descoberto a paz.

Lembrei-me das palavras de Calvino em suas Cidades Invisíveis e corri a buscá-las na tentativa de explicar a fotografia que tirei do espírito de Porto Alegre: “A cidade aparece como um todo no qual nenhum desejo é desperdiçado e do qual você faz parte, e, uma vez que aqui se goza tudo o que não se goza em outros lugares, não resta nada além de residir nesse desejo e se satisfazer”.

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