sábado

Vampiros e Assombrações

14/05/2008

Começou na infância a minha fascinação pelo sobrenatural. Lembro que as primeiras histórias que ouvi do gênero foram contadas por minha mãe. Eram casos supostamente reais, alguns com seres fantasmagóricos, ocorridos na antiga fazenda de meu bisavô paterno, no sertão nordestino.

Vêm daí as imagens que ainda hoje povoam alguns de meus pesadelos, como a casa abandonada de onde se ouviam estranhos lamentos e as luzes no túmulo de Maria Matilde, que os peões da fazenda acreditavam ser metade cobra, metade mulher. Personagens assim me causaram as primeiras impressões de curiosidade e medo. Sensações tão boas que não adiantaram as posteriores explicações maternas sobre o pânico que os antigos tinham pela lepra e a ocorrência natural do fogo-fátuo: eu descobrira que o desconhecido tornava o mundo mais interessante.

Mais tarde, já consciente da vastidão do sobrenatural, enveredei por novos caminhos. Não me bastavam mais as lembranças de minha mãe, os “causos” de seringueiros, nem as lendas da carona do cemitério ou da mulher de branco. Foi quando descobri os contos de Poe – um deles, o gato preto, marcou-me de tal maneira que até hoje me assustam os felinos desta cor – e os filmes de qualidade duvidosa que assistia junto a uma turma de amigos, nas madrugadas de sextas e sábados.

No final da adolescência, comecei a sentir uma atração particular por vampiros. Assisti a todos os filmes e me arrepiei com todo tipo de vampiro, do mais grotesco ao inesquecível Vlad, de Bram Stocker. Tudo porque, além de me assustarem, achava-os atraentes. Comovia-me imaginá-los fadados a sugar o sangue e a vida alheios para viver a eternidade.

Mas claro que essa sina só faz sentido na ficção. Porque, no mundo real, não há nada pior do que ser obrigado a conviver com um vampiro. Sim, eles existem. E não são difíceis de serem reconhecidos. O problema é que, assim como os personagens do cinema, os vampiros reais têm lá o seu charme. Do contrário, como atrairiam suas vítimas?

Bonitos ou inteligentes – e Deus o livre existir um que reúna ambas as qualidades! –, tais vampiros sofrem por motivos banais como a insegurança, o medo e o recalque. Aliás, desconfio que este último seja o motivo que leva um vampiro a colecionar um número maior de vítimas. Porque, dependendo do tamanho do recalque, não bastará a ele sugar os sonhos, as esperanças, os projetos: será preciso aniquilar o outro.

Bom, mas não era sobre isso que eu queria falar. Comecei confessando que vem da infância a minha fascinação pelo sobrenatural. E é a este assunto que preciso retornar para dizer que me agrada imaginar um mundo cuja totalidade dos mistérios nos é negada. Acima de tudo, me agrada a existência do desconhecido. Porque são os seus portões que a imaginação se esforça para abrir.

E ainda que eu saiba que grande risco corre aqueles que não crêem na existência de vampiros, me dói mais imaginar um mundo sem mistérios.

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